“Como primeiro artigo deste blog, imaginei abordar a minha história, como se fosse um estudo arqueológico mesmo — da minha formação, das minhas experiências de vida, de onde vim, como me eduquei, das influências e do que me levou a desenvolver este projeto. Pretendo em vários post, trazer fatos diversos das minhas experiência de vida.
Na verdade, um monte de experiências históricas ao longo da minha vida me levaram a, pasmem, aos 58 anos, começar a estudar antropologia.
Sempre tive uma busca por explicações, por sentido na vida. Nasci na África, filho de portugueses, na época ainda colônia, e por causa da guerra civil em 1975, tive que vir para o Brasil como refugiado de guerra. Ou seja, sou africano, português e me eduquei no Brasil — e ainda por cima, com toda a carga dessas mudanças; culturais, educacionais e financeiras. Passamos muitas dificuldades como refugiados, e também fui influenciado ao longo da minha adolescência, já no Brasil, pelos traumas de guerra dos meus pais. Tive uma vida cheia de eventos que impactaram profundamente minha educação e formação.
Passei fome.
Me estabilizei, me desestabilizei, entre idas e vindas, estudei, conheci países diferentes, passeei por correntes políticas distintas, diversas visões de mundo, religiões diferentes — ou seja, no fundo, minha vida sempre foi uma busca.
Por outro lado, sempre fui atraído por conteúdos de ciências sociais, arqueologia, religião e o porquê delas estarem sempre próximas, sempre soou como uma interrogação. A antropologia sempre esteve presente de forma invisível, indireta. É como se a condução dos fatos estivesse levando a um caminho só — e levou, mesmo que tenha demorado quase cinquenta anos para se cristalizar no meu pensamento.
Decidi então buscar uma formação em antropologia, para ter embasamento teórico e voltar a escrever, sobre esse assunto. Depois de quase trinta e cinco anos, volto a escrever de forma quase cotidiana.
Estruturo agora, meus pensamentos, a partir dos meus estudos iniciais em antropologia. Escolhi as primeiras ideias — ainda meio confusas — e, entre várias possibilidades de abordagens multidisciplinares, e alguma pesquisa, surgiram os títulos, inspirados nas diversas áreas da antropologia.
Do blog, ARQUEOLOGIA DO PRESENTE, e das sessões; Antropos, Restos do futuro, Fé em transito, Terraformar – territórios em disputa e Arqueologia de mim mesmo.
E tudo começou a fazer sentido como um projeto autoral que pudesse explorar, com a visão da antropologia, aspectos das nossas vidas que dificilmente seriam abordados dessa forma. Para mim, também é importante propor uma abordagem autoral — que provoque a mim mesmo, as pessoas ao meu redor e, por que não, a própria sociedade.”
Notas para uma Antropologia de Mim Mesmo: A “Escavação” como Método
A leitura do meu texto “Arqueologia de Mim Mesmo” sob o olhar mais distante(depois de 3 semanas sem tocar no texto), como se fosse o antropólogo que nasce em mim, olhando para o meu personagem que chegou até aqui, me convida a pensar a vida como um território de camadas sobrepostas — e a própria biografia como um campo etnográfico possível.
Como autor, ao narrar minha trajetória pessoal, não busco apenas testemunhar uma experiência, no caso a minha, mas transformar essa experiência em estudo. É aqui que o texto biográfico se funde ao olhar antropológico: “escavar a mim mesmo” é também propor uma teoria sobre o tempo, a identidade e a cultura. No caso a minha, inserida na sociedade. A condição de “refugiado de guerra”, somada às migrações constantes, aos deslocamentos culturais, religiosos e políticos, me inseriu numa posição limiar — um entre-lugares, típico das figuras analisadas pela antropologia. Não é apenas um dado biográfico: é um campo simbólico. Ele carrega o deslocamento não só como lembrança, mas como estrutura de pensamento. Essa é uma chave fundamental para compreender o conceito de “arqueologia do presente” que o blog propõe.
Ao recorrer à antropologia como formação tardia, não estou iniciando um percurso, mas reconhecendo uma trajetória que já vinha sendo percorrida informalmente, até mesmo sem o saber. A intuição teórica sempre esteve presente: nos interesses por rituais, por religiões, por “ruínas” tecnológicas, pelos livros, e sim, documentários destes assuntos.
A formação que busco agora, neste caso, aparece como legitimação posterior de uma vocação que já operava silenciosamente.
Com o título “Arqueologia do Presente” proponho então, uma metodologia alternativa: escavar os rastros do agora (nosso presente), reconhecer as camadas invisíveis do cotidiano, e usar a escrita, o meu escrever, como ferramenta de escuta e elaboração. Essa arqueologia é afetiva, crítica e subjetiva — não por vaidade, mas por princípio. Porque o sujeito que pensa também é pensado, e nenhuma observação é neutra. Este texto não é apenas uma apresentação. É um gesto de posicionamento ético e conceitual. Ele demonstra que pensar o presente exige também a coragem de escavar a si mesmo, e que esse trabalho não busca certezas, mas perguntas que ressoem — em nós e nos outros.
Perguntas para reflexão:
- Que camadas da sua própria história ainda não foram “escavadas” — e o que você teme encontrar nelas?
- Como sua trajetória pessoal molda a forma como você enxerga o presente?
Notas das sessões – Editoriais
Antropos
O humano em foco
Antropos propões um olhar atento sobre o humano em sua dimensão mais ampla – não apenas como sujeito, mas como produtor e também produto, de sistemas, objetos, linguagens e poderes. O nome, simples e ancestral,, evoca a raiz grega da palavra “homem”, mas se abre para as complexidades do viver contemporâneo: o corpo politizado, a cultura cada vez mais moldada por algoritmos, os afetos disciplinados pelas normas de produtividade. Aqui falamos de identidades, tecnologias, cotidiano e transformações de nossas vidas pela velocidade das coisas, que quase sempre não percebemos.
Restos do futuro
Memórias, ruínas e ficções
O futuro nos deixa vestígios? Esta sessão é dedicada aos rastros de modernidade que ainda assombram o presente: ruínas industriais, promessas não cumpridas, ficções cientificas que viraram propaganda. Também olhamos para a cultura material, para os objetos do cotidiano e seus ciclos de obsolescência. A pergunta é: que futuro estaria contido nesses restos? O que mudou? E o que eles ainda nos dizem sobre o que somos e para onde vamos?
Fé em transito
Religião, crença em movimento
Esta sessão aborda os modos de crer, as práticas espirituais e os sistemas simbólicos que atravessam a vida contemporânea. Mais do que descrever religiões instituídas, trata-se de observar como o sagrado é ativado, deslocado e ressignificado nos trânsitos da fé. O foco está menos na doutrina e mais na experiência dos corpos em oração, cultos híbridos, peregrinações urbanas e as novas formas de transcendência em um mundo saturado de consumo e redes sociais.
Terraformar – territórios em disputa
Territórios e conflitos de mundo
Nesta sessão o território não é pano de fundo – é protagonista. Exploramos o território como um campo de disputas simbólicas, geopolíticas e ecológicas. Refletimos sobre os saberes diversas etnias, modos de habitar, cuidar e resistir. Os conflitos por terra, às vezes armados, às vezes econômicos, os discursos sobre sustentabilidade e as operações de apagamento que tentam reconfigurar o território em nome do progresso e de interesses inomináveis.
“Terraformar – territórios em disputa” propõe uma análise dos conflitos de mundo, sobre o olhar antropológico, onde diferentes formas de existir competem e coexistem sob ameaça. Sejam elas étnicas, culturais ou territoriais.
Arqueologia de mim mesmo
Biografia em duas dimensões
Espaço de relatos biográficos de passagens da minha vida, recortes sem ordem cronológica, onde contextualizo minhas influências e minha formação intelectual. Duas dimensões porque são relatos na primeira pessoa ,e depois sempre haverão as notas. Notas de um alter ego do “personagem” antropólogo. Como se o antropólogo que começa a se formar em mim, analisasse o ser humano que me trouxe até aqui.